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A passagem aérea e a moralidade
O presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB/SP), uma das
mais respeitáveis figuras da República, mandou para o arquivo o processo que
propõe a punição do deputado Fábio Faria (PMN-RN), acusado de abuso ao utilizar
as passagens aéreas disponiblizadas pela Câmara. Com isso, abriu caminho para
uma série de outros parlamentares indecorosos nesse item também deixem de sofrer
sanções. Temer, jurista afamado, sem dúvida, agiu de acordo com a lei, mas, nem
por isso, deixou de frustrar a população. Até por que, nem tudo que é legal, é -
também - moral.
Experimentado como é, tanto no Legislativo quanto no Executivo, o presidente da
Câmara apenas fez cumprir o quê determina a lei. Se não o fizesse, sofreria
retaliações políticas. Mas, mesmo que sejam legais, não temos a obrigação de
concordar com a decisão. Ao decidir sobre o parlamentar que empregou mal as
passagens destinadas ao apoio do seu trabalho, Temer atendeu a requisitos
legais, evitando analisar aspectos éticos e morais da questão.
É essa
enormidade de válvulas que levam os políticos e os endinheirados (que podem
pagar bons advogados) a não responderem pelas irregularidades e crimes que
cometem. Quando um prefeito, deputado ou senador, cuja atitude já recebeu a
condenação popular, se safa da punição, quem perde é a classe política e a
própria sociedade brasileira. Afinal, são comportamentos que repugnam o povo,
mas sempre há uma brecha na lei para beneficiar o parlamentar, governante ou
alto funcionário errante. Isso causa náusea...
Não podemos
nos esquecer que as leis foram elaboradas e votadas - muitas vezes até
promulgadas - pelos próprios congressistas. No momento em que acabam por
facilitando a impunidade dos próprios congressistas e de seus protegidos,
transformam-se, aos olhos do povo, em espúria legislação em causa própria.
Senadores e deputados acabam bafejados pelas leis que eles próprios elaboraram e
votaram. Tudo no mais deslavado corporativismo.
É preciso
acabar definitivamente com o preferencialismo. A lei é lei, e deve ser feita e
valer para todos, independente de cargos, escolaridade, relações ou do quanto
têm de dinheiro no bolso ou no banco. Só assim conseguiremos ter uma nação
efetivamente democrática, solidária e justa. Não podem os influentes, poderosos
e abastados gozarem de favores especiais, enquanto o povo, grande vítima da
corrupção e da impunidade que grassa no país, é espezinhado e mandado para a
cadeia por questões de somenos. Temos de, a todo custo, cumprir o artigo 5º da
Constituição: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza". Sem essa igualdade, jamais seremos uma nação livre e soberana.
Os srs.
congressistas e a sociedade como um todo precisam se conscientizar de que não é
só de democracia que o povo necessita. A justiça social e a igualdade entre os
cidadãos são tão importantes quanto as liberdades. Até quando, figuras do mais
alto respeito, como Michel Temer, serão obrigadas a continuar reféns das brechas
que protegem os safardanas do poder e a ignorar o verdadeiro interesse e
sentimento do povo? Já passou da hora de darmos um basta à impunidade...
Tenente
Dirceu Cardoso Gonçalves -
aspomilpm@terra.com.br
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