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O Vizinho - Ano XVII
– Nº 652 - 06/2008 |
Socorro, meus netos estudam numa escola moderna!
Constantemente, incessantemente, ouvem-se agressões à Escola Pública tradicional
como se ela fosse um aparelho manual de fabricação de monstros. Sobrevivente
feliz desse “tipo” de escola, sou testemunha ocular, porque estudei nela e quero
relatar o que se passou ali.
O hino da Escola, lindo, foi composto
por um pai de aluno. As datas cívicas não passavam em branco. A Escola era uma
festa! Estudávamos, sim, numa cartilha de modelo único, considerada, hoje, como
sucata antipedagógica, quadrada, boba, sem cores, barata, mesmo assim, nem todos
tinham acesso a ela, houve casos em que o aluno conseguia uma toda despencada,
mas a encapava e conseguia recuperá-la, porque aquela cartilha era preciosa para
nós...Aprendíamos a amá-la e respeitá-la.
Na sala de aula, havia um
quadro-“negro”, desbotado, dividido ao meio, porque eram duas turmas de séries
diferentes na mesma sala. Nós aprendíamos a respeitar o espaço do outro! Ah! Não
posso me esquecer... havia disciplina...Quase ninguém tinha transferidor e
compasso, mas éramos capazes de reconhecer o compasso das músicas. Tínhamos aula
de música.
O material escolar se resumia em dois
ou três cadernos finos, lápis nem sempre coloridos. Poucos possuíam uma caneta a
tinta...dava status...era o máximo! Na minha Escola havia um coral e cantávamos
em latim, francês e inglês. Havia aulas de trabalhos manuais e aprendíamos a
fazer bainhas, a pregar botões e a costurar as roupas das bonecas. Aprendemos a
gostar de artes! Brincávamos no recreio com petecas, bolas, piões. O recreio era
maior, brincávamos de roda. Fazíamos peças de teatro na Escola.
Boas maneiras, ética, elegância ao
falar, e treino ortográfico eram comuns. Nossa letra não era um garrancho,
tínhamos caderno de caligrafia. Nosso livro para estudo da língua portuguesa
tinha uma antologia dos poetas brasileiros. Até hoje sei de cor Augusto dos
Anjos (quase ninguém hoje sabe que ele existiu) Olavo Bilac, Machado de Assis,
Casimiro de Abreu, Castro Alves e muitos outros.
Evidentemente, reconheço os equívocos daquela Escola.
Mas...e hoje ? Como vai a Escola Pública ?
Ivone Boechat – i.boechat@terra.com.br
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