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UM ESPÉCIME RARO
Joinville, SC, 24 de Novembro de 2005
Ahh, se as pessoas dessem mais atenção à História, quantos erros não seriam evitados!?!?!
Tente descobrir o autor e a época que os textos abaixo retratam:
- Não consigo entender como fomos nos envolver naquela confusão (...) Cabia a nós livrá-los da tirania, permitir que organizassem seu próprio governo (...) Não deveria ser um governo ajustado às nossas idéias, mas um governo que representasse os sentimentos da maioria do povo (...) Essa teria sido uma missão digna dos Estados Unidos. Mas agora... Ora, nos enfiamos numa confusão, num lamaçal de onde, a cada passo, torna-se imensamente mais difícil sair.
- Somos uma matrona imponente vestida em túnicas encharcadas de sangue.
Sobre a cabeça uma coroa dourada de espinhos; empaladas nos espinhos as
cabeças sangrentas de patriotas; numa das mãos uma funda, na outra a Bíblia
(...) Lema da bandeira: “Ama os bens de teu próximo
como a ti mesmo”.
- Quanto à bandeira da província conquistada, é um problema de
fácil solução. Faremos uma bandeira especial, igual à nossa, só que
com as listras brancas tingidas de preto e as estrelas substituídas
pelo crânio e as tíbias cruzadas.
- O que incomoda é essa gente desagradável que luta por seus lares e
liberdades.
- A Inglaterra roubou, por gatunagem, pilhagem e rapinagem,
os campos de diamantes da África, e o mesmo excelente sistema de
governo condena sumariamente o indivíduo que rouba uma única pedra
preciosa da vitrine de uma joalheria.
- Nós nos declaramos um país democrático – um povo honesto -, mas
compramos o ingresso nessa Sociedade de Ladrões Coroados pagando 20
milhões de dólares a um país que não era o dono, por umas ilhas que
não tínhamos o direito de comprar. Foi a piada estupenda do século:
os EUA, depois de vencerem a guerra e de adquirir as ilhas por direito
de conquista, darem 20 milhões de dólares ao vencido. Por quê? Pelas
ilhas? Elas não eram do vencido. Então por quê? O Tio Sam pagou 20
milhões de dólares a título de jóia para ser aceito nessa Sociedade
de Ladrões Coroados. Estamos agora nivelados ao resto deles.
- Companhia Bênçãos da Civilização, uma boa marca, destinada
exclusivamente à exportação.
- Nossos instrumentos civilizadores: coisas como contas de vidro,
teologia, metralhadoras, hinários, gim e tochas de progresso e luz
(adaptáveis para incendiar aldeias).
- Deveríamos esquecer para sempre aquela frase: “Minha Pátria, certa
ou errada, minha Pátria”.
- Sou antiimperialista. Eu me recuso a aceitar que a águia crave suas
garras em outras terras.
Por incrível que possa parecer, os textos acima foram escritos, em 1900, por Samuel Langhorn Clemens, mais conhecido como Mark Twain, o consagrado norte-americano autor dos clássicos “As Aventuras de Tom Sawyer”, de 1876, e “As Aventuras de Huckleberry Finn”, de 1884.
Inicialmente
um defensor das anexações territoriais empreendidas pelos Estados
Unidos, a partir de 1900 Twain torna-se um dos mais ferrenhos críticos
da rapina imperialista praticada pelo seu país, tornando-se membro
ativo da Liga Antiimperialista Norte-Americana, fundada em 1898, logo após
o final da Guerra Hispano-Americana. Muito pouca gente sabe, até porque
este tema sempre foi, e ainda é, tabu nos EUA, mas dela também faziam
parte o industrial Andrew Carnegie, o pensador William James e o filósofo
John Dewey.
A
militância antiimperialista de Twain foi sistematicamente ignorada pela
imprensa e pela academia de seu país, o que acabou desidratando
totalmente seu viés político e realçando unicamente a sua brilhante
obra literária.
Nascido
em 30 de novembro de 1835,
esse corajoso livre-pensador comemoraria, se vivo fosse, 170 anos
na próxima quarta-feira. Um espécime raro, que faz muita falta.
LUIZ
HENRIQUE DA SILVEIRA
Governador do Estado de Santa Catarina
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