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Bomfim - Um bom começo
Joinville, SC, 10 de Novembro de 2005
Este ano comemora-se os 100 anos da publicação de uma das mais
brilhantes e injustiçadas obras literárias brasileiras: “América
Latina – Males de Origem”, escrito em 1905, por Manoel
Bomfim, considerado pelo antropólogo Darcy Ribeiro o grande intérprete
do processo de formação do povo brasileiro, por ter sido um dos raríssimos
analistas que não foi “papagaio da sabedoria alheia ou de parlapatões”.
Médico, graduado na Bahia e doutorado no Rio de Janeiro, foi jornalista
e deputado federal, integrando, com Sílvio Romero, Gilberto Amado e
Felisberto Freire, uma prestigiosa bancada sergipana.
No
prefácio do livro, Darcy faz uma confissão: “Nos meus anos de exílio,
em Montevidéu, passei grande parte do tempo me desasnando nas
bibliotecas públicas uruguaias”. E revela que, de tudo o que lá
havia lido, o que mais o impressionara havia sido o livro de Bomfim, então
ainda praticamente desconhecido no Brasil.
Pois
é deste grande analista que pinço algumas reflexões absolutamente
atuais, posto que o conservadorismo, o medo da mudança, a alergia a
tudo o que é novo continua a nos castigar como uma praga secular.
A
maioria dos que se intitulam progressistas “não suportam que as
coisas mudem em torno deles. Aceitam as palavras, mas não se acostumam
com o que essas palavras designam”. São os “retardatários
de ofício, indivíduos que não compreendem que as sociedades sofrem
evolução constante. Na prática, são escravos passivos da tradição
e da rotina; ativos apenas para opor-se a qualquer inovação, a
qualquer transformação real. Vivem uma vida de adiamentos e vãos
expedientes”.
Na
luta contra o progresso, “os teoristas da estagnação acumulam
absurdos e sofismas, heresias científicas e falsificações históricas,
para provar que a vida deve ser fixada, que a inovação é o mal e que
o progresso está em partir para o passado. Supõem abafar o futuro que
se aproxima, sob o peso de verdades velhas e deturpadas”.
Mas
o pior é que esses retardatários “não se contentam de estar imóveis;
pretendem que todo o mundo se petrifique e que a vida deixe de ser uma
evolução para ser uma repetição apenas, a fim de que vejam amanhã o
que vêem hoje, e o que viram ontem – a estagnação universal. É o
egoísmo arvorado em programa: ´Amanhã será tudo como ontem´”.
Mas,
afinal, “o que é que pretendem conservar? Só se é justamente a
decadência, a resignação social, e tudo mais que, prendendo-nos ao
passado, se opõe obstinadamente à vida e ao progresso. Esse tipo de
política conservadora é antisocial mesmo para os povos que possuem um
passado capaz de despertar entusiasmos, ela é funesta para os próprios
países que construíram instituições benfazejas e obras grandiosas.
Em se tratando de nações onde não há, em verdade, o que conservar,
onde tudo ainda está por ser feito, esta política vem a ser não só
ridiculamente absurda, como essencialmente criminosa”.
Para
Bomfim, “conservar é uma função passiva. Viver é acrescentar
alguma coisa ao que existe. Nossos esforços devem ser no sentido de
melhorar as coisas, corrigir defeitos, transformar e alterar no sentido
de progredir”.
Antes
de iniciar seu relato, Bomfim insere uma advertência, onde diz: “Nos
que são capazes de amar alguma coisa além da própria personalidade, o
sentimento irradia-se, busca a beleza e a bondade onde quer que existam,
alcança tudo que sente, sorri para todas as alegrias, e sofre de todas
as dores (..) Este é um livro nascido, animado, alimentado pelo
sentimento; não o sentimento dos interesses pessoais, que obscurecem a
razão e pervertem o julgamento, mas um sentimento que só aspira alcançar
a verdade”.
Aos
que desejam conhecer e entender melhor esse nosso País, descobrir
porque nosso futuro demora tanto a chegar, garimpar as razões do nosso
atraso e esmiuçar as motivações dos arautos do passado, com certeza
ler Bomfim será um bom começo.
LUIZ
HENRIQUE DA SILVEIRA
Governador do Estado de Santa Catarina
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