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O Retardamento das Mudanças

Joinville, SC,  03 de Novembro de 2005       
 

        Em 1870, a fim de criticar a omissão da Coroa na questão da escravatura, o estadista Joaquim Nabuco proferiu um de seus mais belos discursos. Dele extraio essa oportuna advertência: “O pouco serve hoje, o muito amanhã não basta; as coisas políticas têm por principal condição a oportunidade; as reformas, por poucas que sejam, valem muito na ocasião, não satisfazem ao depois, ainda que sejam amplas”.

        Seja por cálculo ou oportunismo eleitoral, seja por incapacidade de enxergar ou enfrentar a realidade, seja por impossibilidade de transpor o círculo de giz das idiossincrasias ideológicas, o fato é que o Brasil segue como o cachorro, andando em volta, para morder o próprio rabo

        Há quantos anos se fala de Reforma Tributária? Há quantos anos se fala de Reforma Fiscal? Há quantos anos se fala de Reforma Política? Há quantas décadas se fala de Reforma Agrária? Há quantos anos se fala na absoluta necessidade de um novo  Pacto Federativo? Há quantos anos já não se fala mais de Pacto Social?

        Há 20 anos, o PIB da Califórnia (só do Estado da Califórnia) era igual ao nosso. Hoje, é o dobro. E o da China, que era igual, hoje é quase o triplo do brasileiro!

        Por isso, chegamos ao que os norte-americanos chamam de “vanishing point”, ou seja, ao nosso mais grave momento de implosão ética e social. E isso tem relação direta, é conseqüência lógica do adiamento, da delonga, da postergação no enfrentamento das causas reais da crise social, o que reclama as reformas acima elencadas.

         Nicolau Sevcenko, com a sua condição de profundo analista da História, tem uma avaliação precisa sobre essa incompetência brasileira para mudar o que tem que ser mudado: “Há um fato fundamental e dramático sobre o tempo: ele é irreversível. Portanto, cada decisão adiada, cada recurso desperdiçado, cada reiteração caduca representa mais um cheque sem fundo sobre o futuro de uma sociedade em agonia”.

    O ex-ministro Bresser Pereira tem outra interessante reflexão sobre o tema: “Existe no Brasil uma imensa dificuldade em enfrentar e dizer a verdade. Em ser franco, em ser transparente. Governantes e governados procuram sempre o eufemismo, a meia-verdade, o lado favorável dos fatos. Se a verdade é desagradável é melhor deixá-la de lado. Se o Brasil é subdesenvolvido, é melhor dizer que é um país de grande potencial (ou ‘em desenvolvimento’). Se a desigualdade na distribuição de renda é um escândalo, é preferível falar em prioridade para o social”.

        Quando era jovem, eu costumava me empolgar com discursos vibrantes. As frases de efeito, simplesmente, me empolgavam.            Lembro-me de que, anos a fio, ecoou na minha cabeça aquela oração com que Getúlio Vargas iniciou seu último discurso de posse: “Trabalhadores do Brasil, hoje estais no poder. Amanhã, sereis o poder!”.

 Antes eu costumava dar crédito ao que as pessoas dizem. Hoje, valorizo o que as pessoas dizem, quando fazem o que dizem. E, mais ainda, se o fazem a tempo e a hora, com senso de oportunidade, sem o oportunismo daqueles que parecem lutar pelo “progresso” do nosso subdesenvolvimento.

        


 LUIZ HENRIQUE DA SILVEIRA  
Governador do Estado de Santa Catarina

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