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Síndrome de Procusto
Joinville, SC, 26 de Outubro de 2005
Os
mitos são criados pelas culturas
para
responder às suas angústias em relação ao mundo que as circunda. Por
trás deles, se esconderiam não apenas características imanentes a
comportamentos individuais ou grupais, mas arquétipos compartilhados
por toda a humanidade - modelos simbólicos do inconsciente coletivo que
se revelam constantes através dos tempos, presentes nas mais variadas
culturas, sonhos e personalidades de indivíduos do mundo inteiro.
Dentre as muitas figuras
da mitologia grega, havia um
gigante chamado Procusto, que convidava as pessoas para passar a noite em
sua estalagem, numa cama de
ferro. Nessa aparente hospitalidade, porém, se escondia um tenebroso
ardil: ele exigia que os visitantes coubessem, com perfeição, na cama.
Se
o tamanho do hóspede fosse menor que o leito, Procusto torturava-o,
esticando-o até que tivesse (depois de morrer) o comprimento do leito;
caso se tratasse de alguém muito alto, com dimensões superiores às do
leito, reduzia-o ao tamanho da cama, decepando-lhe a cabeça ou as
pernas que sobravam.
A
simbologia contida nesse mito revela a que extremos pode chegar a
ideologia para tentar “dirigir”,
“enquadrar” ou “ajustar” a vida das pessoas ou das sociedades a
padrões, conceitos ou ideais pré-estabelecidos.
Em
1996, quando a Lei Kandir entrou em vigor, 50% do que deixava de ser
arrecadado com o ICMS das exportações eram repassados aos Estados. Em
2004, apenas 17,8% foram ressarcidos. Em reação a isso, na discussão
do Orçamento de 2005 houve intensa pressão de todos os governadores
para que o governo federal destinasse R$ 9 bilhões às unidades
federativas como compensação pelas perdas de ICMS relativas à Lei
Kandir. O Orçamento acabou reservando apenas R$ 5,2 bilhões para esse
fim, mas o acordo acabou selado e o Orçamento
aprovado. Agora, a dois
meses do final do ano, o Governo Federal diz não poder cumprir o
prometido e nega o repasse dos R$ 900 milhões ainda devidos aos
estados.
O não cumprimento do acordo firmado motivou a decisão do Codesul (que congrega os três governadores do Sul mais o do Mato Grosso do Sul) de interpelar judicialmente o governo federal, ajuizando ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para garantir o ressarcimento das perdas provocadas pela Lei Kandir.
O que o STF decidirá é se o Brasil é, de fato, uma República
Federativa ou se os entes federados devem continuar sendo decapitados e
amputados para caber no exíguo leito imposto pelo gigante Procusto.
LUIZ
HENRIQUE DA SILVEIRA
Governador do Estado de Santa Catarina
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