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Joinville, SC, 20 de Outubro de 2005
MARTINELA
Montaigne, nos “Ensaios”, relata costumes da
Florença medieval: a ética dos guerreiros não lhes permitia vencer
pela surpresa; por isso, preveniam o inimigo um mês antes de iniciar o
combate, tocando sem parar o sino que apelidavam de Martinela.
Pois não foi outra coisa que fez o ministro da Agricultura Roberto Rodrigues nos últimos muitos meses. Badalou incessantemente sua Martinela, alertando o Planalto de que o contingenciamento linear imposto pelo Planejamento estava eliminando recursos de áreas vitais, que, sem ação continuada, poriam a perder um esforço de décadas.
O
resultado da incúria está aí, tisnando a boa imagem da agroindústria
brasileira, e seus efeitos serão sentidos por todos, competentes e
incompetentes, responsáveis e irresponsáveis. Santa Catarina, que é
exemplo de controle e fiscalização, ainda é o único estado
brasileiro respeitado, mas é ilusório imaginar que, a milhares de quilômetros,
em outro continente, sejamos considerados uma ilha de excelência, como
seria merecido.
Na
mesma obra, o sábio francês ensinava que “o destino
apenas suscita o incidente; a nós é que cabe determinar a qualidade de
seus efeitos”.
Para
comprovar que existe um tipo de gente em quem a razão não é capaz de
vicejar, Montaigne cita alguns casos de
condenados sendo conduzidos para a morte, e não simplesmente para a
morte, mas para a morte ignominiosa, acompanhada às vezes de cruéis
suplícios: um deles, que conduziam à forca, pediu que
“evitassem passar por tal rua porquanto corria o risco de encontrar
certo negociante a quem devia um dinheirinho e receava ser preso”. Outro,
respondeu ao confessor que lhe consolava afirmando que cearia à noite
com o Senhor: “Vá em meu lugar, hoje estou de jejum”. Outro,
que pedira para beber, vendo o carrasco fazê-lo antes, no mesmo
recipiente, recusou “com medo da sífilis”.
Estes
são os cegos que não querem ver, em quem o destino dá seu abraço
mortal, impingindo todos os seus efeitos. Infelizmente, com a incompetência
ocorre o mesmo que com os cristais, que se colorem de acordo com o fundo
em que repousam; ela só ocupa o lugar que lhe é dado. Assim como as
roupas que usamos, que não nos aquecem com seu próprio calor, mas com
o nosso, que conservam e desenvolvem.
Em
sua magistral obra “Da República”, Cícero indagava:
“Onde se poderá encontrar discurso de tanto valor que se possa
antepor a uma boa organização do Estado, do direito público e dos
costumes?”.
Séculos
depois, somos vítimas da logorréia desenfreada, sem a contrapartida
das ações.
Ao dissecar o “Caráter”, Ralph Emerson alertava que “Os homens [medíocres] julgam a vida pela versão refletida nas opiniões, nos acontecimentos e nas pessoas. Não são capazes de prever a ação até que ela se concretize”. Eles não sabem que “a retidão é uma vitória perpétua, celebrada não por gritos de alegria mas com serenidade, que é a alegria permanente ou habitual”. E, deles, fazia a merecida caricatura: “Cabeças desorientadas que precisam ver a casa construída para poderem entender a respectiva planta”.
LUIZ
HENRIQUE DA SILVEIRA
Governador do Estado de Santa Catarina
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