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NOVO PARADIGMA DE ESTADO
Joinville, SC, 20 de Outubro de 2005
Santa
Catarina já foi paradigma de estado equilibrado e harmonioso, com boa
distribuição de renda e de oportunidades. Mas bastaram algumas décadas
de centralização administrativa e concentração do poder para
desfazer aquele cenário de equilíbrio e harmonia.
Ao
assumirmos o Governo, centenas de municípios sofriam de anemia
profunda, enquanto alguns poucos inchavam de gente e problemas,
vitimados pelo êxodo rural que nos transformou em campeões brasileiros
dessa chaga social.
Longitudinal
como nenhum outro, durante décadas nosso estado manteve exilados e
esquecidos centenas de municípios, distantes até
Quando
apresentamos nosso Programa de Descentralização à sociedade
catarinense, partimos de uma clara diagnose: a administração
centralizada na Capital concentrava o orçamento, os investimentos, as
licitações e esvaziava, progressivamente, o interior, principalmente
as pequenas comunidades rurais.
Esse
fenômeno já fora detectado, no final dos anos 50, em um seminário
socioeconômico promovido pela FIESC. Eleito governador, em 1960, Celso
Ramos acatou parecer dos talentosos irmãos Alcides e Nelson Abreu que
sugeria a criação de várias instituições descentralizadoras. Com a
criação da Secretaria do Oeste, ele instituiu a primeira (e,
infelizmente, única) divisão descentralizada do primeiro escalão da
administração. Com a criação do BESC, atomizou, em todo o Estado, a
oferta de crédito. Com a expansão da CELESC, disseminou a oferta de
energia por todo o interior do Estado.
No
entanto, passada a renovadora “Era Celso Ramos”, o Estado voltou a
concentrar-se ameaçando destruir aquilo que nos era mais caro: o
crescimento harmônico do Estado, seja nos seus territórios urbanos,
seja nos rurais. O último censo do IBGE, publicado em 2002, revelou que
a ameaça havia se tornado real: Santa Catarina havia se transformado no
campeão brasileiro de êxodo rural.
A
maioria dos países desenvolvidos tem estrutura federativa bastante
diferente da brasileira, com ênfase nos governos locais e regionais, na
repartição de competências
entre as três esferas de poder: estadual, regional e municipal.
Essa
formatação traz inúmeros benefícios. Para citar um único exemplo,
na Suécia o Governo Central gere dois terços do produto social, mas se
contenta com 28% dos recursos públicos. Enquanto isso, as estruturas
locais de gestão, que permitem participação muito mais direta da
população, controlam cerca de 72%.
A
lógica que impõe essa descentralização é simples: ao se defrontarem
com situações que exigem intervenções ágeis e eficazes, em áreas
complexas como estratégias de segurança pública, projetos de
infra-estrutura, políticas sociais, programas de emprego e renda,
iniciativas locais de dinamização das atividades econômicas etc., os
municípios, cada vez mais, são obrigados a extrapolar a tradicional e
rotineira cosmética urbana. Daí a necessidade imperiosa de
aquinhoar-lhes com mais recursos.
No
Brasil, no entanto, apesar de também terem assumido a linha de frente
dos problemas, os municípios permanecem no último escalão da
administração pública. Sei bem o que é isso, pois, antes de chegar
ao Governo do Estado, fui prefeito por três mandatos.
Minha
experiência pessoal indica que, salvo em casos muito específicos, as
decisões devem ser tomadas, sempre, no nível mais próximo da população
interessada. Mas não se trata de, simplesmente, dar "dedos mais
longos" à administração central, multiplicando seus tentáculos.
É preciso dar às administrações locais condições efetivas de
gerirem as atividades. Esse “princípio da proximidade" pressupõe
capacidade real de decisão, com descentralização dos encargos,
atribuição de recursos, flexibilidade de aplicação e participação
da sociedade.
A
profunda reestruturação que empreendemos
A
descentralização permite que o Governador possa concentrar-se naquilo
que efetivamente devem ser as preocupações de Estado: o equilíbrio
macroeconômico, os desequilíbrios sociais e regionais, as políticas
tecnológicas de longo prazo, as grandes redes de infra-estrutura de
transporte, energia e telecomunicações, a inserção do estado no espaço
econômico nacional e internacional.
Nessa
nova realidade, são as estruturas municipais e regionais que passam a:
1.
assumir o papel de catalisadoras das forças sociais, definindo eixos críticos
de ações, capazes de mobilizar a sociedade em torno dos seus
interesses e objetivos de médio e longo prazo
2.
criar foros de elaboração de consensos em torno dos problemas-chave do
desenvolvimento, incluindo representações das empresas, sindicatos,
organizações comunitárias, organizações não governamentais,
instituições de ensino e pesquisa, além dos diversos níveis de
administração pública presentes no município, de forma a assegurar
que a gestão se torne cada vez mais participativa
3.
perder o medo de inovar ou introduzir soluções em caráter
experimental, deixando a própria sociedade se pronunciar sobre o acerto
de determinadas inovações
4.
investir na identificação dos recursos
naturais, humanos e de capital que podem ser melhor mobilizados em nível
local
5.
fazer um esforço sistemático de estudar e organizar o conhecimento
sobre o potencial existente, buscando a mobilização dos recursos
subutilizados e a racionalização geral das atividades locais e
enfocando o ciclo completo de atividades que asseguram o desenvolvimento
econômico e social.
O
Estado centralizador faliu, acabou, pela total falta de capacidade dos
governos em solucionar problemas de uma crise global, seja ela política,
social ou fiscal.
Na atual conjuntura, o
espaço público comunitário adquire peso fundamental, refletindo a
evolução da democracia representativa para sistemas descentralizados e
participativos, com clara e inequívoca
preocupação distributiva.
Precisamos
corrigir erros do passado, despindo o estado da sua esgarçada roupagem
patriarcal, que sempre gerou instabilidade política e insatisfação da
sociedade, que, ao buscar no Estado amparo para a garantia de seus
direitos, nele só encontrou paternalismo, clientelismo, amadorismo,
burocracia, além da ineficiência administrativa, econômica, política
e social.
O
Estado moderno tem que se menos herói e mais inteligente. Para isso,
tem que se tornar um Estado do saber e da competência, comprometido com
a inovação, com as novas tecnologias de informatização e comunicação,
pois, cada vez mais, a
busca pela gestão racional dos nossos parcos recursos deixa de ser um
luxo e passa a ser condição vital para o desenvolvimento.
Nosso
desafio é eliminar conceitos velhos e embolorados. O inimigo que temos
de derrotar é o atraso, o arcaísmo, o clientelismo, a centralização,
a burocracia. Para isso, tivemos de abrir mão de parte do poder
de governo, rompendo com a forma velha, ultrapassada e arcaica de
governar, que impediu o desenvolvimento do nosso estado por tantos anos.
O
Governo do Estado vai interagir cada vez mais com as organizações
sociais, municípios e regiões, colocando-se como parceiro das
iniciativas de caráter regional e local. Ao diminuir o poder do estado
e fortalecer o poder das comunidades, vamos inverter a lógica perversa
do centralismo e recolocar a estrutura do governo a serviço da
sociedade, e não mais fazer da sociedade serva do governo.
LUIZ
HENRIQUE DA SILVEIRA
Governador do Estado de Santa Catarina
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