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CENSURA, NUNCA MAIS!

Joinville, SC,  08 de Agosto de 2005       
 
        4 de julho de 1976: os EUA comemoram os 200 anos da sua independência. Por aqui, começávamos a sair do auge do período ditatorial, sob o despotismo “esclarecido” do general Geisel. A censura ainda atormentava os meios de comunicação, especialmente os jornais da imprensa alternativa. Estes, porém, não se deixavam calar facilmente. Muitas vezes ludibriaram os censores, assim como nossos melhores compositores, Chico à frente. 
        Numa sacada magistral, o jornal Movimento (que teve em Sergio Motta um de seus mais importantes apoiadores financeiros, no líder do grupo autêntico do MDB, Chico Pinto, um dos mais significativos sustentáculos políticos, e em Fernando Gasparian, fundador do jornal Opinião, a grande inspiração) decidiu “homenagear” os EUA e sua independência, publicando um artigo especial sobre a história da Revolução Americana e – toque de gênio! - um boxe com a Declaração de Independência dos EUA. 

        Quem já leu a Declaração sabe que se trata de um verdadeiro convite aos povos para que tomem seus destinos em suas próprias mãos. Como nesta incrível passagem: “Quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objeto, indica o desígnio de reduzi-los [os homens] ao despotismo absoluto, assiste-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos”. 

   
     Pânico entre os censores! Esse conceito “subversivo” não podia ser publicado. Era uma provocação falar em abusos e usurpações! Era uma analogia sub-reptícia falar em despotismo absoluto! E, pior, o final era um chamamento à revolta! Impossível permitir sua publicação. 

   
     Um jornalista, tentando esconder o riso, fez a pergunta que não queria calar: “Vocês têm certeza de que vão censurar um texto histórico, a Declaração de Independência, e ainda por cima dos EUA?”.

Dúvida, angústia, uma azáfama quase cômica. Por fim, depois de várias consultas aos escalões superiores, a decisão foi pela censura total do texto. 
        Como sempre fazia, a direção do jornal usava o próprio arbítrio para contra-atacá-lo, enviando cartas aos jornais do País e às agências internacionais.

Escândalo mundial! Escritores, como Gore Vidal, senadores, como Frank Church, grandes jornais, como New York Times, comentaram e ironizaram o fato.

Fracasso retumbante dos censores! Toda a grande imprensa brasileira noticiou a censura e, pior (para eles, claro), publicou na íntegra a Declaração.

Para Rousseau, "a pátria não subsiste sem liberdade, nem a liberdade sem virtude, nem a virtude sem cidadãos". Para que esses três pilares da democracia germinem e vicejem, é vital a livre exposição às idéias, a informação plural e massiva, mesmo que, por vezes, esse princípio seja maculado por interesses políticos menores, deturpando idéias ou supervalorizando eventuais deslizes.

Ainda que falte virtude à liberdade de muitos cidadãos, tudo vale a pena quando a alma não é pequena...

 LUIZ HENRIQUE DA SILVEIRA  
Governador do Estado de Santa Catarina

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