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O FIO DE ARIADNE



Joinville, SC,  21 de julho de 2005
   
        
       

           Ao assistir a esse drama trágico que assola o cenário político do nosso País, lembro-me do lamento desesperado de Picasso diante do avanço das tropas federais do generalíssimo Franco: “Parece que Deus abandonou a Espanha”. Lembro-me, também, do escritor francês André Maurois, que costumava classificar esses momentos de turbulência de “esquina histórica”.
           Otimista inveterado que sou, por mais que o jorro incessante de más notícias nos atordoe, ao invés de praguejar contra Deus, como Picasso, prefiro acreditar na promessa de renovação, como Maurois.
           Assim como Teseu, que penetrou no labirinto de Dédalo e matou o Minotauro, pondo fim ao sofrimento dos atenienses, temos de nos agarrar ao fio de Ariadne, representado pelos poderes legislativo e judiciário, e, com eles, passarmos o Brasil a limpo. Temos a obrigação de aproveitar essa esquina histórica, que pode representar um gigantesco salto de qualidade nas nossas práticas e costumes políticos.
          Profundo conhecedor da alma humana, Scott Fitzgerald dizia que aos 18 anos nossas convicções sobem ao topo da montanha, onde, ávidas, vislumbram a imensidão dos horizontes; e, aos 40, descem à caverna escura, onde escondemos a vergonha de ter desertado da luta.
         Não temos o direito de desertar! O Brasil é muito maior do que os buracos (ou abismo, neste caso) que sistematicamente lhe colocam no caminho. O que nos cabe, nesse momento histórico, é manter o sangue frio, separar o joio do trigo e acreditar nas instituições.
        Durante os dolorosos dias de internamento do presidente eleito Tancredo Neves no Instituto do Coração, Ulysses Guimarães chegou a ser criticado por dizer que “os homens passam, as instituições ficam”. A frase pode ter sido dura demais para o momento, mas é absolutamente verdadeira.
       Apesar do joio, existe muito trigo, acredite! Sem partidarismos radicais ou preconceitos banais, podemos, facilmente, identificar gente séria e de valor em todos os partidos. 
      Sem dúvida, o presidencialismo, no Brasil, tem sido uma sucessão de sístoles e diástoles, em que se alternam a esperança e o desencanto, mas, ainda assim, tenho convicção que não há melhor forma de governo.
      Dizem que o teste de uma inteligência superior é a capacidade de manter na mente duas idéias opostas ao mesmo tempo e, ainda assim, conservar a capacidade de fazê-la funcionar, para anunciar, com clareza de que a raiz da crise é o sistema de financiamento das campanhas eleitorais.
      Reforma Política, já!


LUIZ HENRIQUE DA SILVEIRA

Governador do Estado de Santa Catarina

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