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MULTICULTURALISMO



Joinville, SC,  08 de junho de 2005

        
    Pode não passar de coincidência, mas, num mundo cada vez mais dominado pelo unilateralismo norte-americano, os palestrantes do Ministério do Desenvolvimento Econômico de Ontário insistiram, todos, na ênfase do caráter multicultural do Canadá, destacando essa característica como um dos seus principais diferenciais competitivos. Na última terça-feira, quando fizeram a apresentação das potencialidades daquela província à nossa comitiva, revelaram um fato surpreendente: o Português é a quarta língua mais falada no Canadá, o que revela a forte presença de uma grande colônia lusófona (vinda de Portugal, Angola, Moçambique e do Brasil).
      É, de fato, surpreendente a afluência de imigrantes de todos os cantos do mundo não só em Ontário, mas em todo o Canadá. Até o final dos anos 70 do século passado, a maior parte dos imigrantes era de europeus, principalmente ingleses. Desde os anos 80 até os dias atuais, prepondera a imigração dos asiáticos, principalmente chineses, e de europeus da extinta cortina de ferro.
        Diferentemente do que acontece no Brasil, onde a miscigenação produziu uma raça misturada, um “blended” com sabor único, em Ontário o que vimos foram comunidades perfeitamente integradas, mas com forte apego às suas peculiaridades, mantendo-as e cultivando-as com um fervor admirável, mas que, ao mesmo tempo, realimenta as diferenças.
        O Brasil, ao contrário, talvez seja o único país do mundo onde pode se dizer que exista, de fato, o tão falado e celebrado “melting pot”, o tal cadinho de culturas em que as diferenças são anuladas, sintetizadas, amalgamadas, forjando uma espécie de “deus ex-machina”, que nem é autóctone nem alienígena, mas algo mais e além desse simples reducionismo, algo como uma multi-raça brasileira, fruto de todas as contribuições culturais acumuladas em décadas de antropofagia étnica e cultural.
        Tomando como referencial a postura dos canadenses de Ontário, talvez seja hora de o Brasil dar mais valor à sua multiplicidade étnica e cultural, oferecendo-a, também, como um grande potencial competitivo, maior até do que o que presenciamos naquela província, na medida em que, no nosso caso, além de múltipla, nossa variedade é quase imperceptível, graças ao caráter antropofágico do brasileiro, que abre os braços de tal forma ao outro, que, por envolvê-lo de uma maneira tão completa, acaba por mimetizá-lo, integrando-o tão completamente que termina por transformá-lo em um “nativo”.
        Nesses tempos de globalização acelerada, em que trafegar pelo centro de qualquer grande cidade do mundo nos traz uma sensação de que não saímos de casa, tal a semelhança das paisagens, dominadas por marcas, símbolos e logotipos de empresas mundializadas, é absolutamente fundamental investir naquilo que nos diferencia, que nos distingue, que nos faz únicos.
        Sem prejuízo, é óbvio, de buscarmos sempre um constante alinhamento com a tecnologia mais avançada, garantindo a contemporaneidade científica e tecnológica que nos garante a necessária competitividade.
       Mas, como pudemos verificar no Canadá, sem perder nossa identidade, nossas melhores características.


LUIZ HENRIQUE DA SILVEIRA

Governador do Estado de Santa Catarina

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