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LIÇÕES DA HISTÓRIA



Joinville, SC,  25 de Maio de 2005

        
 

          Os cinqüenta anos do dia “D”, recentemente comemorados como a vitória da democracia sobre o fascismo, me lembraram de Dante Alighieri, que, há exatos 740 anos, nascia para entrar na História da literatura mundial.
          Na sua inexcedível "Divina Comédia”, a frase mais conhecida está no dístico pendurado às portas do inferno: Vós que entrais, abandonai toda a esperança.
            Essa frase sempre me pareceu perfeita para encimar os umbrais dos campos de concentração, espalhados pelo regime de Adolf Hitler em boa parte do território europeu, principalmente na Polônia.
          Nunca me esqueci de outras lições do mestre italiano: Os lugares mais quentes do inferno são destinados aos que, em tempos de graves crises, mantêm-se neutros ou a "Justiça divina pesa em balanças diferentes os pecados dos homens dissimulados e dos sinceros". 
           Como a vida imita a arte (e vice-versa), 166 anos depois do nascimento daquele gênio, foi cometida uma das maiores infâmias da História, quando, em Rouen na França, os ingleses condenavam a camponesa Joana D´Arc à fogueira, sob a acusação de bruxaria. 
            Joana D\'Arc, dizendo-se inspirada por Deus, contribuiu de forma decisiva para mudar o rumo da Guerra dos Cem Anos, entre França e Inglaterra. Com sua coragem, realizou, efetivamente, para o milagre de erguer o espírito abatido dos franceses, fazendo com que um sopro cívico levantasse aquela Nação.
            Essa injustiça só veio a ser reconhecida decorridos 489 anos daquele dia infame, quando, em 30 de maio de 1920, a heroína francesa foi anonizada.
          Quem leu ou assistiu à peça “Santa Joana”, de Bernard Shaw, não esquece do seu triste lamento final, em meio às chamas: Até quando, ó Senhor, até quando o mesmo “Quosque Tandem?” com que Cícero denunciava a conspiração de Catilina. 
            Há exatos 227 anos, também num 30 de maio, nascia um dos maiores escritores franceses, Francisco María Arouet, conhecido como Voltaire, grande defensor das liberdades civis e da justiça, inimigo feroz do despotismo e da tirania da monarquia francesa. A sua frase mais célebre é a que fundamenta mais concisamente o espírito da democracia: Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei at! é a morte o direito de dizê-las. 
            Para ele, o mal não é metafísico, mas social. Para superá-lo, só com a razão e muito trabalho. É dele a frase: O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade. Em “Cândido", na minha opinião, seu melhor livro, Voltaire critica o otimismo de Leibniz dizendo: Se esse é o melhor dos mundos possíveis, porque existem tantos males e injurias. 
            Como político, porém, destaco uma de suas reflexões mais marcantes, sobre uma chaga renitente no serviço público: Hoje, devemos acrescentar a mais nova e talvez a mais formidável forma de domínio: a burocracia ou o domínio de um intrincado sistema de órgãos no qual homem algum pode ser tido como responsável e que poderia ser chamado com muita propriedade o domínio de Ninguém.
            História e literatura, arte e vida caminham juntas. Sejam divinas ou humanas, a comédia e a tragédia estão presentes na nossa trajetória. Que os tempos de injustiça e tirania sirvam para reafirmar em nós a convicção de que, por pior que possa parecer, a democracia é a melhor forma de governo. Como se pode ver, é a melhor forma de governo.

 LUIZ HENRIQUE DA SILVEIRA  
Governador do Estado de Santa Catarina

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