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CENSURA, NUNCA MAIS



Joinville, SC,  04 de Abril de 2005

        
 

       4 de Julho de 1976: os EUA comemoravam duzentos anos da sua independência.

Por aqui, começávamos a sair do auge do período ditatorial, sob o despotismo “esclarecido” do general Ernesto Geisel. Mas a Censura continuava atormentando os meios de comunicação, especialmente os jornais da imprensa alternativa. Esta, porém, não se deixava calar facilmente. Muitas vezes conseguiu ludibriar a Censura, assim como faziam nossos melhores compositores, Chico à frente.

Numa sacada de gênio, o jornal Movimento decidiu “homenagear” os EUA e sua independência, publicando um artigo especial sobre a história da Revolução Americana e – toque de gênio! - um boxe com a Declaração de Independência dos EUA.

Quem já leu a Declaração sabe que se trata de um libelo democrático, um verdadeiro convite aos povos para que tomem seus destinos em suas próprias mãos. Como nesta incrível passagem: “Quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objeto, indica o desígnio de reduzi-los [os homens] ao despotismo absoluto, assiste-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos...”.

Pânico entre os censores! Esse conceito “subversivo” não podia ser publicado. Era uma provocação falar em abusos e usurpações! Era uma analogia sub-reptícia falar em despotismo absoluto! E, pior, no final ainda se fazia um chamamento à revolta! Impossível permitir sua publicação...

Até que um jornalista, tentando esconder o riso e a ironia, fez a pergunta que não queria calar: “Vocês têm certeza de que vão censurar um texto histórico, a Declaração de Independência, e ainda por cima dos EUA?”.

Dúvida, angústia, stress, uma azáfama que lembrava os Irmãos Marx (os do cinema-pastelão). Por fim, depois de várias consultas aos escalões superiores, a decisão foi pela censura total do texto.

Como sempre fazia, a direção do jornal Movimento usava a própria arbitrariedade para contra-atacá-la. Sempre que era vítima de Censura, enviava cartas relatando o ocorrido aos principais jornais do País e às agências internacionais.

Escândalo mundial! Escritores, como Gore Vidal, senadores, como Frank Church, grandes jornais, como o New York Times, comentaram e ironizaram o fato.

Fracasso retumbante dos censores! Toda a grande imprensa brasileira noticiou a censura feita e, pior (para eles, claro), publicou na íntegra a Declaração vetada.

 

 

 LUIZ HENRIQUE DA SILVEIRA  
Governador do Estado de Santa Catarina

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