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O PODER DA INÉRCIA
Joinville, SC, 09 de Fevereiro de 2005
Realmente, a burocracia é um mal universal...
Desejando
reduzir as 12.666 leis municipais em vigor na cidade de São Paulo, os
vereadores descobriram, em pleno século 21, que ainda vigorava uma
legislação de 1927 regulamentando as profissões de motorneiro de
bonde e de cocheiro de carruagens, ambas extintas muitas décadas atrás!
Em
1949, quando procurava salas disponíveis para instalar novos serviços,
a prefeitura de Paris descobriu que ainda funcionava o Departamento de
Indenizações relativas aos prejuízos causados pela enchente de 1910.
A seção era atendida por dois funcionários idosos que revelaram: a última
indenização havia sido paga em 1913, ou seja, 36 anos antes!
Mas
não precisamos ir tão longe, nem no tempo nem no espaço. Pouco depois
de assumir, o atual secretário de Planejamento, Armando Hess de Souza,
resolveu vistoriar todo o prédio em que funcionava sua secretaria e
descobriu dois andares inteiros alugados para estocar... lixo!!!
Séculos
atrás Heráclito já sabia que "nada existe de permanente a não
ser a mudança". No entanto, parece que, assim como existia a
inflação inercial, continuam existindo o burguês e o revolucionário
inerciais. Ambos, conscientemente uns, inconscientemente outros, agem
como reacionários, reagindo a tudo o que seja novo.
Os
burgueses inerciais atuam mesmerizados por Bernardo Pereira de
Vasconcelos, que dizia: "Fui liberal, hoje sou regressista".
Os revolucionários inerciais agem como se não tivessem chegado ao
poder e, lá chegando, percebido como pode ser injusto tachar de
"neoliberais" ou "autoritárias" as iniciativas que,
com boa fé, crêem ser a solução para os problemas do País.
É
preciso modernizar os reacionários! Nossa direita tem de evoluir como
direita e nossa esquerda precisa evoluir como esquerda!
Já
vai longe o tempo em que alguns davam razão ao escritor inglês
Chesterton quando ele dizia: "Não é que os políticos não
vejam a solução. O que eles não enxergam é o problema".
Hoje, para o bem e para o mal, nossos políticos, via de regra, evoluíram
muito. O que acaba gerando outro tipo de entrave: mesmo enxergando o
problema e concordando com a solução, fala mais alto o pragmatismo
eleitoral, que delimita, circunscreve, orienta suas ações e reações.
Assim,
os responsáveis pela execução das políticas públicas acabam ficando
reféns de uma lógica perversa não só em relação a si próprios,
enquanto executivos e agentes políticos, como, também, em relação à
sociedade em geral, que vê toldada toda e qualquer iniciativa que vise
a superar os muitos e variegados problemas a que são continuamente
expostos.
Nesse
cenário kafkiano, os agentes públicos ficam todos no papel do matemático
a quem o tzar Ivan IV, da Rússia, pediu que calculasse o número exato
de tijolos necessários para construir determinado prédio. Terminada a
obra e verificada a absoluta precisão dos seus cálculos, sentenciou-o
à morte na fogueira, acusando-o de bruxo e de ser dotado de estranhos e
perigosos poderes.
LUIZ HENRIQUE DA SILVEIRA
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