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AS LIÇÕES DE TOCQUEVILLE
Joinville, SC, 13 de janeiro de 2005
Em
1835, foi editado na França o primeiro volume de uma obra que tentava
explicar a democracia, a estabilidade e a prosperidade da América do
Norte: A Democracia na América, cujo 2º volume só seria
publicado em 1840, completando suas quase mil páginas. O autor era
Alexis de Tocqueville, jurista francês que aportou nos EUA em 9 de maio
de 1831, aos 26 anos, para uma visita de estudos que acabou resultando
na melhor descrição (ainda hoje, insuperável) do funcionamento do
regime norte-americano.
Quem
ainda não leu, não pode aquilatar a dimensão do mal que a Doutrina
Bush está causando àquele país. Não pode avaliar o patrimônio que
está sendo dilapidado. Não pode entender a importância da
descentralização no sucesso daquele país.
Durante
onze meses, Tocqueville percorreu 7.500 quilômetros, passando por 18
dos 24 estados que compunham a União. O que mais chamou a sua atenção
no contanto direto com os americanos foi que a soberania popular não
era algo retórico.
Vindo
de uma França de tradição centralista, onde o Palácio de Versalhes
mandava em tudo, espantou-se com a pujança e autonomia política das
pequenas comunidades. Os municípios (county) eram as células
vivas do regime. Deles partiam iniciativas que, num movimento
ascendente, chegavam até as altas esferas do Estado e da União. E isso
só era possível porque o poder central era limitado. A autoridade de
Washington não tinha força para intrometer-se no que ele chamava de
"sociedade comunal". O país nada mais era do que centenas de
pequenas localidades controladas pelo povo.
Depois
de mostrar os vícios do Velho Mundo: “Nações existem na Europa
onde o habitante se considera como uma espécie de colono, indiferente
ao destino do lugar que habita (...) A fortuna da sua aldeia, a política
da sua rua, a sorte da sua igreja em nada o afetam; pensa que nenhuma
dessas coisas lhe diz respeito de maneira alguma, e que pertencem a um
estrangeiro poderoso a que chama de Governo”, Tocqueville faz o
contraste com as virtudes do que vira no Novo Mundo.
No
capítulo Dos efeitos da
descentralização administrativa nos EUA
há algumas pérolas que, 170 anos depois, ainda precisam ser
apreendidas por muitos:
-
“A centralização pode
concorrer admiravelmente para a grandeza passageira de um homem, nunca
para a prosperidade durável de um povo”.
-
“A força coletiva dos
cidadãos terá sempre mais poderes para produzir o bem-estar social do
que a autoridade do governo”.
-
“Um poder central, ainda que esclarecido, não pode abarcar em si
todos os detalhes da vida de um povo, pois semelhante tarefa excede as
forças humanas. Quando deseja criar e fazer funcionar tantas fontes
diversas, contenta-se com um resultado demasiado incompleto ou se esgota
em esforços inúteis”.
-
“A centralização não
tem, aparentemente, dificuldades em imprimir regularidade aos negócios
correntes; prover os detalhes da política social; reprimir as desordens
e pequenos delitos; manter a sociedade num status quo que não é
propriamente nem uma decadência nem um progresso; entreter no corpo
social uma espécie de sonolência administrativa que os administradores
têm o costume de chamar de boa ordem e tranqüilidade pública. Ou
seja, mostra-se excelente para impedir, não para fazer. Quando se trata
de mover profundamente a sociedade ou de lhe imprimir uma marcha rápida,
a sua força a abandona”.
No
capítulo Idéias gerais
sobre a administração nos EUA,
ele diz:
-
“Nos EUA, cada um é melhor juiz daquilo que só tem relação
consigo mesmo e é a pessoa mais indicada para prover as suas
necessidades particulares. A comuna e o condado são encarregados, pois,
de velar pelos seus interesses especiais. O Estado governa e não
administra”.
Do
capítulo Do sistema comunal
na América, pincei
esta preciosidade:
-
“As instituições comunais são para a liberdade aquilo que as
escolas são para a ciência, pois a colocam ao alcance do povo. Sem
instituições comunais, pode uma nação dar-se um governo livre, mas não
tem o espírito da liberdade”.
Mostrando
as raízes de nossos problemas, no capítulo Das vantagens do sistema
federativo em geral Tocqueville já dizia: “Atribui-se grande
parte das misérias em que se acham mergulhados os novos estados da América
do Sul ao fato de se terem querido implantar grandes repúblicas em
lugar de fracionar a soberania”.
LUIZ
HENRIQUE DA SILVEIRA
Governador do Estado de Santa Catarina
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