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Ameaças à imprensa
Joinville, SC, 24 de Novembro de 2005
Ameaças
à imprensa deste país não são novidade; no período Getulista havia
o DIP-Departamento de Imprensa e Propaganda; na ditadura militar pós 64
houve a censura aos jornais, a prisão e o assassinato de jornalistas,
como Vladimir Herzog, morto no DOI-CODI- Departamento de Operações e
Informações do Exército Brasileiro em São Paulo.Hoje a censura não
é mais a maior ameaça – embora seja sempre uma tentação.
Após a
redemocratização do Brasil, tais perigos diminuíram
consideravelmente, mas jamais cessaram. Uma relativamente recente forma
de intimidação, excetuando-se a fracassada tentativa do governo Lula
de impor o CFJ- Conselho Federal de Jornalismo e a ANCINAV, vem do
Judiciário, que não raro aceita como procedentes ações de danos
morais infundadas e de valor exagerado.
A última
vítima da indústria do dano moral foi o jornal catarinense 'A Notícia',
condenado em primeira instância a pagar absurdos R$50.000,00 à filha
do então candidato à presidência da República, Lula da Silva, porque
o periódico publicou, durante a campanha eleitoral de 2002, que
sua filha (que é jornalista) estaria empregada graças à amizade deste
com o então prefeito de Blumenau, Décio Lima (PT).
Ao fundamentar sua
decisão, o juiz assinala que “ficou claro que a reportagem dava a
entender que a filha do [hoje] presidente não tinha condições de
assumir o cargo no Same — Serviço Municipal de Água e Esgoto de
Blumenau por faltade experiência”.Difícil vislumbrar qualquer ofensa
no que foi publicado, todavia, o jornal poderá recorrer da decisão.(Fonte:
Revista Consultor Jurídico)
A título de
demonstração do absurdo dos valores impostos como castigo por alguns
magistrados, a Justiça acaba de reduzir o momentoso valor inicial de
R$3 milhões a que foi condenada a empresa Dow Corning pelo rompimento
de uma prótese de silicone para seios pela primeira instância do TJ do
Ceará, depois reduzida para R$ 1 milhão. A demandante teve o valor dos
danos morais reduzido para R$125.000,00 por recurso da empresa ao STJ; o
que ainda é muito.
É claro que na
imprensa, como em qualquer outro ramo de atividade, há bons e maus
profissionais, mas não parece mais adequado punir eventuais abusos com
o 'direito de resposta', em que o ofendido poderia refutar as acusações
no mesmo local e com idêntico destaque? O leitor já imaginou o efeito
educativo que teria, por exemplo, a publicação na capa de uma revista
semanal ou jornal, em letras grandes, a resposta de quem tiver sido
acusado sem fundamento? O maior castigo para um jornalista, colunista,
articulista e para os donos dos veículos de comunicação, televisão
inclusive, seria o descrédito de seus leitores e espectadores. Além do
mais, distinguir-se-iam assim quem entra na Justiça apenas com intenção
de ganhar polpudas indenizações daqueles que realmente se sentiram
ofendidos, e não há melhor cura para o ofensa que o seu reconhecimento
pelo autor.
O dono do jornal 'Folha do Estado', de Cuiabá-MT,
Domingos Sávio Branndão, foi barbaramente assassinado em 2002 por
haver denunciado gente do crime organizado daquela cidade. Um dos
envolvidos, ex-policial, foi condenado a 18 anos, outros agurdam
julgamento, e o mandante do crime está no Paraguai, onde espera pela
extradição e responde por crimes na Justiça local. Nem por isso a 'Folha
do Estado' se intimidou, mas uma vida foi o preço de sua coragem.
Costumam chamar a
imprensa de quarto poder, mas se assim for, é hoje um poder acuado,
sempre ameaçado, como ocorre agora com o diário carioca 'O Dia',
que, segundo denúncia anônima, teria sido ameaçado pela facção
criminosa “Comando Vermelho” por ter publicado uma série de
reportagens sobre o tráfico de drogas, que haveria resultado na prisão
de alguns traficantes.
O jornal pediu
proteção policial e a Secretaria da Segurança do Rio providenciou,
mas até quando?
Terão os
jornalistas agora que assinar matérias sob pseudônimos?
Além da indiscutível
e inestimável utilidade do chamado jornalismo investigativo, a imprensa
é aliada da democracia, e até dos governos, embora reiteradas vezes
seus integrantes reclamem de sua atuação. Simples assim, nas palavras
de Vasco Leitão da Cunha (1903-1984), um dos grandes diplomatas que o
Brasil já teve: “ A imprensa livre é a maior proteção que pode
ter um chefe de Estado contra seus subordinados” (Diplomacia em
alto mar, ed. FGV, Rio)
Luiz Leitão
Articulista, Brasil - luizmleitao@gmail.com
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