Direitos iguais para quem é diferente

Darci de Matos 

A verdadeira democracia só será alcançada quando o diferente – em seu sentido amplo, ou seja, todo aquele que sofrer algum tipo de discriminação – for aceito na sociedade da mesma maneira que a maioria dos cidadãos. No século 20 houve uma grande conquista neste sentido quando as mulheres ocuparam plenamente o mercado de trabalho. No século 21 poderá haver o mesmo avanço caso os portadores de necessidades especiais consigam ser aceitos no trabalho como pessoas capazes, em igualdade de condições com os outros colegas de empresa. Assim, os 17 milhões de brasileiros nestas condições poderiam usufruir plenamente de sua cidadania.
   
         A partir de 1999 a Lei 8.213 obriga as empresas a reservar de 2% a 5% de suas vagas (dependendo do número de funcionários) para portadores de necessidades especiais. No mês de março a Câmara de Vereadores de Joinville autorizou a contratação de nove estagiários através do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE). Através desta resolução quisemos dar um exemplo para a sociedade, sinalizando que prefeitura, outros órgãos e empresas também façam o mesmo. Afinal, as empresas que adotaram esta sistemática se surpreenderam com os resultados.
   
     Hernani Roscito, gerente comercial  da empresa T. A. Logística, que faz rotulagem para nacionalização de produtos importados, diz que a empresa  registrava um alto índice de erro na colagem de etiquetas até decidir testar portadores de síndrome de Down. “Os erros caíram a zero e a produtividade aumentou. O esforço repetitivo é um trabalho que ninguém faz melhor que eles”, ressalta.
   
         A Empresa Correios e Telégrafos também aderiu a esta prática. Valdir Neumann, gerente regional em Joinville, conta que está satisfeito com os seis portadores de necessidades especiais que trabalham sob sua responsabilidade. “Eles são responsáveis e alguns deles têm desempenho até melhor do que aqueles contratados por concurso público”. Uma destas contratadas, que preferiu não se identificar, diz que está satisfeita com esta oportunidade que se abriu para ela. “O portador de necessidades especiais é capaz. Ele precisa ser visto como uma pessoa normal, tem suas limitações, mas a mente é igual a de outras pessoas”, diz..
   
         Sempre tenho batido nesta tecla: os portadores de necessidades especiais são tão capazes e têm a mesma competência que as pessoas ditas normais. Quando derrubarmos o preconceito contra eles, com certeza, toda a sociedade será beneficiada. Existe uma lei que obriga a sua contratação, mas queremos, inicialmente, que os empresários e o poder público se conscientizem da importância em contratá-los. Só assim não haverá constrangimento de ambas as partes.
   
         Mas não basta apenas que patrões se convençam desta necessidade, oferecendo vagas e disponibilidade física para estas pessoas em suas empresas. É necessário também que haja uma sensibilização dos funcionários. Os portadores de necessidades especiais querem conviver com seus colegas sem paternalismo ou preconceito. Se todos tratarem o seu semelhante com dignidade e respeito, estaremos contribuindo para uma sociedade mais humana, que é o objetivo de todos nós.   

Darci de Matos, presidente da Câmara de Vereadores de Joinville e professor universitário

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