Teimosa esperança

*Carlito Merss

        É difícil ler o noticiário político e econômico sem ficar espantado com algumas coisas. O mercado agora está mais calmo. O nervosismo, segundo muitos "analistas", devia ser debitado na conta do Lula, líder das pesquisas e candidato das mudanças - como se elas, e não a atual política, fossem um risco para o País. Só que Lula continuou líder e o candidato do governo - de cujo sucesso dependeria a salvação do caos - caiu para terceiro lugar! Como explicar, então, a calmaria? A conclusão é que ou a crise tem origem em outros motivos que não os eleitorais, ou o candidatura de Ciro Gomes (PPS) assumiu não apenas o segundo lugar, mas também a condição de plano B do governo e do mercado. Ou as duas coisas juntas!
   
     Leio ainda que o crescimento de Ciro estaria ligado a uma simpatia crescente na classe média. Sobre esta interpretação, vamos analisar primeiro uma questão numérica. De todas as candidaturas, a de Lula é a que tem maior consistência, de acordo com a pesquisa do Ibope. Projeções feitas a partir do levantamento mais recente demonstram que o candidato do PT à Presidência já tem garantidos cerca de 20 milhões de votos. São aqueles que disseram que não pretendem mudar seu voto até as eleições. Um total de 80% dos entrevistados disseram já ter escolhido seu candidato, dos quais 44% não mudarão mais o voto. Desse total, 49% votarão em Lula, 23% em Ciro Gomes (PPS), 15% em José Serra (PSDB) e 13% em Anthony Garotinho (PSB). Levando-se em consideração um eleitorado de 115 milhões de pessoas, Ciro teria garantidos apenas 9,3 milhões de votos, Serra contaria com 6 milhões e Garotinho com 5,2 milhões. Em outras palavras, é muito cedo para afirmações conclusivas sobre qual o principal adversário de Lula. Ainda mais que a campanha nos meios de comunicação de massa (TV e rádio) ainda não começou.
   
     Quanto à classe média, arrochada pelo governo Fernando Henrique, acho improvável que ao rejeitá-lo, caia nos braços de um projeto de clonagem feito nos laboratórios do PFL. A classe (cada vez menos) média sabe, por exemplo, que o PFL e o PPB - que em Santa Catarina estão com Ciro - são co-responsáveis pelo desastre FHC. Juntos, eles impediram a reforma tributária, que poderia justamente fazer justiça com um setor que paga muito mais impostos do que deveria.
   
     Não creio que a classe média seja acometida de repentina amnésia e esqueça que um dos homens fortes da candidatura Ciro Gomes é Jorge Bornhausen, homem forte do governo Collor, homem forte do governo FHC... e autor de um projeto apelidado de Código da Sonegação, que beneficiaria os mesmos de sempre. Os assalariados sabem muito bem que quanto mais sonegação, mais sobra para eles, que tapam os furos carregando nas costas o peso de uma carga tributária cada vez maior e mais insuportável.
   
     Dados de pesquisas mostram, por outro lado, que a grande maioria dos brasileiros quer mudar de fato a atual política econômica. Um fator que hoje coloca o candidato número 1 do governo em situação delicada, já que é identificado com o continuísmo, mas tenta bancar o crítico tardio quando percebe a rejeição popular. Tal indefinição tem sido fatal para sua imagem. Ainda que faça discurso oposicionista, Ciro deve ser o próximo a entrar em tal contradição. Afinal, como explicar que vai mudar alguma coisa de forma substancial na companhia de tanta gente que não desgruda do poder há muito tempo?
   
     Se é para mudar, o melhor é que seja com quem entende do assunto. O PT conhece muito melhor o Brasil, como o Brasil conhece muito melhor o PT. Temos experiência, responsabilidade - não é por acaso que o prefeito petista de Concórdia, Neodi Saretta, foi escolhido o melhor gestor fiscal do País -, propostas concretas e capacidade de diálogo tanto interna como externamente - o presidente do PT, deputado José Dirceu, acaba de visitar os EUA para mostrar que as mudanças tornarão o Brasil melhor para os investidores interessados na produção. A definição consistente por Lula é um reflexo dessa realidade. E de uma teimosa esperança de fazer do nosso País um lugar feliz e com justiça social.

* Deputado federal - PT/SC

07/2002
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